A Força do Cooperativismo Paranaense
4 Maio. 2026 ● 6 min de leitura
Em entrevista exclusiva, José Roberto Ricken, presidente do Sistema Ocepar, faz um balanço do faturamento recorde de R$ 223 bilhões, analisa os gargalos globais e detalha como o planejamento estratégico e a agenda ESG estão moldando o futuro do setor no Paraná.
O cooperativismo no Paraná não é apenas um modelo econômico; é um pilar de segurança social que sustenta comunidades inteiras. Em 2025, o setor provou sua resiliência ao enfrentar um cenário de extremos climáticos e instabilidade nos mercados internacionais, fechando o ano com números históricos e uma participação recorde de 4,4 milhões de cooperados.
Para entender o que sustenta esse crescimento constante e como o estado se tornou referência mundial em gestão e eficiência, conversamos com José Roberto Ricken, presidente do Sistema Ocepar. Nesta entrevista, ele discorre sobre as metas ambiciosas do plano PRC300, a importância estratégica de centrais como a Frimesa e o compromisso inabalável com a sucessão familiar e a sustentabilidade no campo.
Revista Frimesa: Presidente Ricken, fechamos 2025. Olhando para os números e para o campo, qual o balanço geral que o senhor faz do desempenho das cooperativas do Paraná, neste ano?
José Roberto Ricken: O ano de 2025 foi de superação e resiliência para o nosso setor. Enfrentamos um cenário complexo, marcado por eventos climáticos severos e pela carência de mecanismos de seguro agrícola que dessem o suporte necessário à produção. Somado a isso, convivemos com custos operacionais elevados e taxas de juros que encareceram o crédito, limitando, em muitos momentos, o ritmo de investimentos na ampliação da nossa capacidade produtiva.
Já nos desafios externos, o setor foi impactado por barreiras comerciais e taxações em mercados estratégicos, além do desafio sanitário imposto pelo primeiro caso de influenza aviária no país, o que gerou restrições temporárias em destinos fundamentais para nossas exportações de proteína animal.
Mesmo diante desses obstáculos, os três principais ramos do cooperativismo paranaense (agro, crédito e saúde) demonstraram a força de seu planejamento estratégico e da gestão profissional. Tivemos avanços notáveis no setor das agroindústrias, como a expansão significativa da rede própria de hospitais no ramo saúde, garantindo maior verticalização e qualidade no atendimento, além do fortalecimento do sistema de crédito com a abertura de novas unidades, o que ampliou a capilaridade e o suporte financeiro aos associados.
Os números em 2025 e os balanços consolidados reafirmam a solidez do nosso modelo de negócio. O faturamento bruto atingiu a marca de R$ 223 bilhões, representando um crescimento nominal de 8,5% em relação a 2024. Já as sobras líquidas somaram R$ 10,3 bilhões, mantendo a estabilidade em comparação ao exercício anterior. O setor também se expandiu, saltando de 227 para 255 cooperativas registradas. Esse vigor reflete-se no impacto social, com a geração de 154 mil postos de trabalho, consolidando o setor como um dos maiores empregadores do Paraná, com um quadro social que atingiu o volume recorde de aproximadamente 4,4 milhões de cooperados.
Este crescimento no número de cooperativas registradas na Ocepar reflete dois movimentos estratégicos: a integração das 14 cooperativas singulares do Sistema Cresol, que robustece o ramo crédito, e a revitalização das 21 cooperativas-escola nos colégios agrícolas e florestais — uma iniciativa fundamental de educação e sucessão, apoiada pelo Governo do Estado e pela Ocepar. Em suma, 2025 prova que o cooperativismo não é apenas um modelo econômico, mas uma rede de segurança e desenvolvimento que se mantém firme, crescendo com responsabilidade mesmo sob condições adversas.
Revista Frimesa: O Sistema Ocepar tinha metas ambiciosas dentro do plano PRC500 (Plano Paraná Cooperativo). Como está o progresso para atingir os R$ 500 bilhões de faturamento?
Ricken: As cooperativas no Paraná têm uma tradição sólida de planejamento. Tudo começou na década de 1970 com os Picoops (Projetos Integrados de Cooperativismo), onde o crescimento das cooperativas foi planejado por região. A Ocepar foi criada justamente para coordenar esse processo, unindo entidades de apoio como a Secretaria da Agricultura, extensão rural, o Incra e parcerias internacionais.
No início dos anos 1990, demos outro passo crucial: a criação do programa de autogestão. As próprias cooperativas, em assembleia, decidiram bancar esse monitoramento. O atual PRC300 é herdeiro direto dessa cultura de investir no planejamento e, acima de tudo, no treinamento de pessoas. Hoje, realizamos mais de 15 mil eventos de capacitação por ano e mantemos 60 cursos de pós-graduação.
Em 2015 faturávamos R$ 50 bilhões; fizemos o PRC100 para chegar aos R$ 100 bilhões em cinco anos. Em 2025, alcançamos R$ 223 bilhões; esperamos chegar em 2027 com R$ 300 bilhões e, em 2030, próximo aos R$ 500 bilhões. O foco é diversificar com produtos de valor agregado. O cooperativismo do Paraná vai continuar crescendo e absorvendo mercado. Prova disso é a Frimesa, que também tem seu planejamento estruturado para alcançar, até 2030, um faturamento de R$ 15 bilhões.
Revista Frimesa: Nenhum ano é isento de obstáculos. Em 2025, quais foram os principais gargalos?
Ricken: Os desafios foram muitos. No mercado internacional, preocupam as questões geopolíticas decorrentes de conflitos regionais, a retomada do protecionismo com o estabelecimento de tarifaços e o aumento das barreiras não tarifárias. Também temos a necessidade de diversificar a pauta de exportação, que está muito concentrada no complexo soja e carne de frango, buscando novos mercados para não depender de poucos países importadores. No âmbito interno, temos preocupações com a economia, juros altos, dívida pública elevada, reforma tributária em implantação e insegurança jurídica. Apesar disso, as perspectivas são positivas, pois a agropecuária brasileira é extremamente competitiva.
Revista Frimesa: O modelo de cooperativismo do Paraná é estudado mundialmente. Na sua visão, qual é o “tempero secreto” dessa eficiência?
Ricken: O segredo é o comando do cooperado aliado a uma gestão profissional de excelência. O comando emana de uma liderança legítima, que possui a estabilidade necessária para planejar a longo prazo — diferentemente do mercado tradicional, onde as trocas de diretoria são frequentes.
Por outro lado, a gestão precisa ser executiva e técnica. No Paraná, não buscamos executivos de mercado que desconheçam as particularidades do setor; nós os formamos internamente. Além disso, baseamos nossas decisões em dados: monitoramos mensalmente cerca de 40 indicadores de desempenho de cada cooperativa, desde 1991. Outro fator decisivo é a educação continuada. Para dar continuidade a esse legado, focamos na renovação e na inclusão de jovens e mulheres, garantindo o futuro do sistema através da sucessão familiar e do protagonismo feminino.
Revista Frimesa: O ranking da Aliança Cooperativa Internacional (ACI) de 2025 mostrou que, das 21 cooperativas brasileiras entre as 300 maiores do mundo, 13 são do Paraná. O que esse domínio diz sobre o nosso protagonismo?
Ricken: Diz que o cooperativismo, no Paraná, é uma necessidade. 92% dos nossos produtores possuem menos de 100 hectares. Sem a cooperativa, mais da metade deles já teria deixado a atividade. Nós eliminamos a intermediação excessiva. O resultado da industrialização e da agregação de valor volta diretamente para o produtor.
O segredo da prosperidade no campo está em diversificar. Programas de integração em cadeias como aves, suínos, leite e peixes mudam o patamar da propriedade. Um agricultor com 10 alqueires diversificados obtém uma rentabilidade maior do que um produtor com 100 alqueires focados exclusivamente em grãos. Quem está organizado tem o poder de decisão e acesso a uma estrutura comercial que permite vender no melhor momento do mercado. Estar organizado é o nosso maior diferencial competitivo.
Revista Frimesa: De que forma o Paraná está liderando a agenda ESG no agronegócio global?
Ricken: No Paraná, a liderança na agenda ESG se manifesta na prática: somos referência em energias renováveis, como a produção de biogás a partir de resíduos animais, e no manejo conservacionista de solos. Dentro desse ecossistema, o trabalho da Frimesa é referência. A central tem focado em pilares essenciais: investimentos na modernização de plantas para reduzir o consumo de água e incentivo para que os produtores adotem tecnologias que transformem passivos ambientais em energia.
Essa responsabilidade ambiental é indissociável do compromisso social. Ao assegurar o bem-estar animal e a conformidade social no campo, a cooperativa garante que o produto final atenda aos rigorosos critérios de rastreabilidade exigidos pelos mercados europeus e asiáticos. O Paraná lidera porque o nosso modelo já nasceu com o “S” de social e o “G” de governança; o que estamos fazendo agora é consolidar a vertente ambiental com tecnologias de ponta.
Revista Frimesa: Para encerrar, qual mensagem o senhor deixa para as famílias cooperadas do Paraná?
Ricken: A mensagem que deixo é que vocês são a verdadeira razão de existir de todo este sistema. O modelo cooperativista fundamenta-se nos esforços comuns como uma alternativa de crescimento democrática e sustentável. Temos a convicção de que, se cada cooperado cresce, todo o sistema prospera. As cooperativas respeitam as peculiaridades de cada local, desenvolvendo soluções de negócios e apoiando ações que transformam a realidade das comunidades. Continuem sendo protagonistas dessa história.
RAIO-X DO COOPERATIVISMO PARANAENSE (BALANÇO 2025)
O modelo cooperativista reafirma sua solidez como o principal motor da economia do Paraná. Confira os indicadores consolidados do último exercício:
- Faturamento Bruto: R$ 223 Bilhões (+8,5% vs 2024)
- Sobras Líquidas: R$ 10,3 Bilhões
- Quadro Social: 4,4 Milhões de Cooperados (Recorde Histórico)
- Geração de Empregos: 154 Mil Postos de Trabalho Diretos
- Presença Global: 13 Cooperativas do PR entre as 300 maiores do mundo (Ranking ACI)
- Capilaridade: 255 Cooperativas registradas na Ocepar
- Educação e Gestão: +15 Mil eventos de capacitação e 60 cursos de pós-graduação ativos
